Desmistificando a Domótica

Aureside, 17/10/2007


Por Caio Bolzani*


Desde a década de 20, quando surgiram os primeiros eletrodomésticos nos Estados Unidos, os fabricantes já usavam o termo casa do futuro para promover os benefícios que seus equipamentos iriam trazer para a dona de casa na época. A promessa era que eles iriam poupar o tempo das pessoas executando as tarefas rotineiras e cansativas do lar.
Um dos fatores que contribuíram para alavancar a venda de eletrodomésticos na época foi a utilização de novos núcleos ferromagnéticos que possibilitou a diminuição do tamanho dos motores elétricos e uma subseqüente queda no preço. Anteriormente a esse fato, todos os eletrodomésticos para funcionar tinham que ser conectados a um volumoso motor através de correias e engrenagens. Era um abuso pensar que cada eletrodoméstico poderia ter seu próprio motor independente.
Quase 90 anos depois, a casa do futuro ainda é mote para a venda de eletrodomésticos e continua representando uma situação de facilidades e conforto. Porém, assim como aconteceu com os motores elétricos, hoje a dúvida surge sobre os benefícios de se conectar cada eletrodoméstico em rede permitindo seu monitoramento e comando remoto.
É fato que nos últimos anos a Automação Residencial (AR) tem novamente despertado o interesse das pessoas. A computação pessoal e a Internet são as principais responsáveis pela naturalidade com que conversamos sobre tecnologias em nossas casas usando um jargão antes restrito apenas aos analistas de sistemas. Muitos já fazem da Automação Residencial sua fonte principal de recursos seja desenvolvendo e construindo novos equipamentos, seja integrando-os. O número de publicações e de sites na Internet cresce vertiginosamente e a cada dia estão mais completos e tecnicamente mais precisos. Estamos vivenciando a segunda grande onda da Automação Residencial depois da criação dos dispositivos X-10 no fim da década de 70.
Dois fatores contribuem para a procura dessa tecnologia e para o crescimento desse mercado – o primeiro é o ambiente residencial que permanece praticamente inexplorado para a implementação de sistemas de redes e de controle - o outro é o apelo ao novo que aflora desse tema. Para hobistas e entusiastas a AR é sinônima de equipamentos de iluminação automatizados e home-theaters incrementados. Para os que enxergam além, a AR representa novas descobertas, desafios e oportunidades.
A Automação Residencial tem mostrado que a integração de dispositivos eletroeletrônicos e eletromecânicos aumenta consideravelmente os benefícios se comparados com os sistemas isolados, de eficiência limitada. É também uma aliada na redução do consumo de recursos como água e energia elétrica, além de trazer maior conforto e segurança aos usuários. No entanto, revendo os últimos 20 anos de história, a AR tem sido vítima da problemática em se desenvolver equipamentos e sistemas para o uso residencial. A automação predial e a industrial adotam como premissa básica a existência do usuário “padrão” que facilita e direciona o planejamento das instalações e equipamentos a fim de acomodar a maioria dos usuários. No caso da Automação Residencial, o usuário interage e interfere no sistema o tempo todo e isso cria diversos entraves na concepção de um equipamento eletrônico dedicado ao ambiente residencial.
Nessa nova dimensão, a AR cede o lugar de destaque para ser incorporada em uma nova ciência denominada Domótica. Com caráter multidisciplinar, ela agrega vários conceitos de outras ciências como Arquitetura, Engenharia, Ciência da Computação, Medicina, Sociologia e Psicologia a fim de estudar todas as necessidades do usuário frente às possibilidades oferecidas pelo mundo digital e suas interações com a residência automatizada. Em suma, esse estudo mais amplo torna a Domótica a principal diferença na conquista do sucesso definitivo dessa segunda onda das casas do futuro.
Para que esse processo de desenvolvimento ocorra de forma crescente e gradual, os inúmeros desafios e a complexidade de projeto devem ser atacados de forma pragmática. Pelo fato da AR moderna ser um tema relativamente novo, não existe ainda um conjunto de protocolos, equipamentos e dispositivos padronizados e unânimes. Muitos ainda são emprestados dos ambientes de automação industrial e predial. No entanto, devido à demanda, algumas entidades internacionais como a CABA (Continental Automated Buildings Association), a OSGi (Open Services Gateway Initiative) e a HAVI (Home Audio Video Interoperability), apenas citando as principais entre dezenas de outras, e nacionais como a Aureside (Associação Brasileira de Automação Residencial), vêm organizando e intensificando as interações entre as grandes empresas de informática, eletro-eletrônicos, softwares e de controle, visando padronizar e fomentar a tecnologia de Automação Residencial.
Enquanto isso não acontece, o integrador deve iniciar seu projeto escolhendo tecnologias que permitam uma flexibilidade no desenvolvimento das soluções e na integração entre equipamentos e dispositivos. Inicialmente, existem três grandes setores que ele deve se preocupar (Fig.1).

Fig.1 Divisão planificada das responsabilidades na AR
O primeiro setor é o de controle, responsável pelo gerenciamento dos atuadores, dispositivos de controle e sensores. Muitas dessas tecnologias adotaram nós de controle com inteligência e memória embutidas o que garante uma abordagem mais descentralizada do que a utilizada em ambientes prediais, provendo uma maior autonomia a cada um destes pontos. Cálculos e tomadas de decisões são realizados diretamente por microprocessadores instalados próximos aos sensores e atuadores, desafogando o gerenciador principal. Isso traz vários benefícios ao sistema, reduzindo tráfego na rede e evitando uma total paralisação do conjunto em caso de pane.
O setor de dados apresenta as redes Ethernet (e derivadas) como padrão de fato. Recentemente, as redes sem fio (Wi-Fi) têm estado em grande evidência devido à facilidade de instalação e o custo total.
O setor de multimídia compreende todos os dispositivos necessários para a execução de áudio e vídeo em uma residência. Ele é responsável pelo gerenciamento de conteúdo, filtragem de canais, gravação digital sob demanda e pelo transporte da informação em redes de alta velocidade com qualidade de serviço assegurada.
Essa divisão auxilia o integrador no desenvolvimento dos projetos de AR, pois facilita o entendimento das responsabilidades herdadas por cada sistema e aumenta a velocidade de detecção de problemas em casos de falha. Apesar desses contratempos de uma tecnologia emergente, existe a motivação de encarar os desafios que surgem nesse novo caminho que leva à construção de um ambiente automatizado e num breve futuro, ao da casa inteligente. Até breve.

*Eng. Caio Bolzani é Integrador certificado pela Aureside, a Associação Brasileira de Automação Residencial e responsável pelo  LAR, o Laboratório de Automação Residencial da Poli – USP. É também autor do livro Residências Inteligentes, o primeiro livro sobre AR e Domótica no Brasil. 

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